Mostra temática – Gênero

O conceito de gênero pode trazer várias nuances: a primeira se refere a mulheres e está inserida no movimento de mulheres e nos estudos e pesquisas feministas. Nesta nuance, o conceito traz à tona a matriz do patriarcado – instituições, práticas e discursos que impõem estigmas e comportamentos discriminatórios contra as mulheres.

A segunda nuance se refere à compreensão de que os papéis femininos e masculinos são criados um em relação ao outro, ou seja, homens e mulheres são compreendidos a partir das interações e das referências entre eles e elas. Não existe um mundo “deles” separado do mundo “delas”.

E a terceira nuance nos mostra que gênero é uma construção social e cultural, inserida em um contexto histórico. Assim, entre tempos e contextos diferentes, nacionais e internacionais, podemos ter diferentes leituras sobre a questão de gênero, apesar de a matriz do machismo ainda ser preponderante.

Tradicionalmente, falamos em dois gêneros – o masculino e o feminino. Mas há quem não se identifique com nenhum de les e até quem se identifique com ambos! A pessoa cisgênero é aquela que se identifica com o gênero igual ao do sexo de nascimento, enquanto a transgênero se identifica com um gênero diferente ao do sexo de nascimento. Os intergêneros se identificam com ambos os gêneros, e os agêneros não se identificam com nenhum deles.

Assim, precisamos diferenciar a identidade de gênero, a forma como uma pessoa se reconhece dentro dos padrões de gênero (cisgênero, transgênero, transexual, mulheres e homens trans e travestis), da orientação sexual – a forma como uma pessoa se sente em relação à afetividade e à sexualidade (heterossexualidade, homossexualidade, bissexualidade e assexualidade).

A Mostra Temática da 11ª Mostra Cinema e Direitos Humanos traz sete filmes que perpassam todas essas nuances. O filme De que Lado me Olhas, de Ana Carolina de Azevedo e Leonardo Michelon, nos mostra como esta construção social e cultural, muitas vezes baseada em estereótipos e ideias pré-concebidas, pode ser refeita com base no respeito às diversidades e às individualidades. Em Pobre, Preto e Puto, de Diego Tafarel, e Meu Nome É Jacque, de Angela Zoé, conhecemos trajetórias diferentes e com diferentes identidades, que também trazem esta mensagem.

A História da Menininha que Amava Borboletas, de Paula du Gelly, e Precisamos Falar do Assédio, de Paula Sacchetta, nos trazem a perspectiva das violações baseadas em questões de gênero e que ocorrem, às vezes de maneira sutil, outras vezes não, em nosso cotidiano. Estes relatos nos fazem relembrar a importância da Lei Maria da Penha, de 2006, da Lei do Feminicídio, de 2015, do Pacto Nacional pelo Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, do Disque 100 e do Ligue 180.

Vale lembrar que a violência baseada no gênero está vinculada a estigmas e discriminação, que estabelecem uma hierarquia entre orientações sexuais e identidades de gênero, instaurando uma relação em que mulheres, lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis passam a ser qualificados como sujeitos sem direitos e, portanto, excluídos da cidadania e da dignidade humana.

O Mapa da Violência de 2015, sobre o homicídio de mulheres no Brasil, identificou que, entre 1980 e 2013, houve crescimento no número de mulheres vítimas de homicídio, com uma taxa de 13 homicídios diários em 2013.

As estimativas sobre a violência baseada no gênero mostram uma relação com aspectos étnicos e de classe: o número de mulheres negras assassinadas aumentou no período de 2003 a 2013 e o perfil da população vítima de LGBTfobia no Brasil é de jovens gays e travestis/transexuais, pretos e pardos, de média e baixa renda, moradores de periferias das grandes e médias cidades brasileiras. Assim, vemos que o racismo é um agravante nos casos de violência baseada em gênero.

Com os filmes Carol, de Mirela Kruel, e Madrepérola, de Deise Hauenstein, narrativas novas, de respeito às diversidades, mostram que mudar os discursos repletos de estigmas e discriminação é possível.

E é por acreditar na riqueza que o debate sobre gênero promove e na possibilidade dessa mudança de conceitos, práticas e discursos, que apresentamos a temática de gênero na 11ª Mostra Cinema e Direitos Humanos, na esperança de contribuir para o enfrentamento às violações motivadas por essa questão.

Filmes:

A História da Menininha Que Amava Borboletas

Paula Du Gelly | Estados Unidos | 2016 | 4 min | Ficção
Produtora realizadora: Paula Du Gelly
14 anos

Para onde ela queria ir, ela não podia levar ninguém… especialmente seu passado.

Ficha técnica

Roteiro: Paula Du Gelly
Fotografia: Matt Fore e câmera adicional Gal Oppido
Edição: Paula Du Gelly
Elenco: Mackenzie Paulson, Adrianna Costa, Paula du Gelly

 

Carol

Mirela Kruel | Brasil | 2016 | 20 min | Documentário
Produtora realizadora: Mirela Kruel Criação de Imagens e Ph7 Filmes
14 anos

CAROL – Trailer from Mirela Kruel on Vimeo.

A história de uma mulher que se redescobriu depois de ter passado por uma situação de violência. Um registro do seu cotidiano, suas dificuldades e angústias, sonhos e alegrias. Através da proximidade com a vida de Carol vemos como é possível superar preconceitos, tristezas, e seguir em frente.

Ficha técnica

Roteiro: Marcela Bordin
Fotografia: Eduardo Nascimento Rosa
Edição: Bruno Carboni

 

De Que Lado Me Olhas

Ana Carolina de Azevedo e Helena Sassi | Brasil | 2014 | 15 min | Documentário
Produtora realizadora: Carolina de Azevedo e Leonardo Michelon
Livre

De que lado me olhas (dir. Elena e Carol) – Teaser from Carolina de Azevedo (SK) on Vimeo.

“O que é não pede para ser, simplesmente é.” Em Porto Alegre, sete pessoas oferecem suas perspectivas sobre uma importante realidade desconversada.

Ficha técnica

Roteiro: Carolina de Azevedo, Elena Sassi, Iuri Santos, Leonardo Michelon
Fotografia: Iuri Santos
Edição: Leonardo Michelon
Elenco: Alice, Sophia, Felipe, Angelix, Eric, Alex, Georgia

 

Madrepérola

Deise Hauenstein | Brasil | 2015 | 15 min | Documentário
Produtora realizadora: Unisinos
10 anos

Madrepérola – Teaser from Clara Moraes on Vimeo.

Em uma maré alheia à diversidade, vivem ostras que são afetadas por serem consideradas fora dos padrões e medidas. Essa é uma história sobre como as pérolas se formam.

Ficha técnica

Roteiro: Deise Hauenstein, Clara Moraes, Karen Eggers, Fabiane Lorscheiter
Fotografia: Karen Eggers
Edição: Leo Bracht
Elenco: Giovana Guzinski, Julliane Toaldo, Luara Cruz, Tainara Fraga, Victória Souza, Yasmini Dandara, Yasminne Cohen.

 

Meu Nome É Jacque

Angela Zoé | Brasil | 2016 | 72 min| Documentário
Produtora realizadora: Documenta Filmes
12 anos

O documentário aborda a diversidade através da história de vida de Jaqueline Côrtes, uma mulher transexual brasileira, que vive com Aids. Militante pela causa, Jacque tem a vida marcada por lutas e conquistas como representante do governo brasileiro na ONU. Hoje mora numa pequena cidade, levando uma vida voltada para a maternidade e a família. Ao acompanhar o cotidiano de Jacque, este documentário apresenta os inúmeros desafios que foram rompidos pela personagem.

Ficha técnica

Roteiro: Angela Zoé
Fotografia: Luís Abramo
Edição: Célia Freitas Edt, Fernando Botafogo e Marcelo Luna

 

Pobre Preto Puto

Diego Tafarel | Brasil | 2016 | 15 min | Documentário
Produtora realizadora: Pé de Coelho Filmes
12 anos

Pobre Preto Puto – Teaser from Pé de Coelho Filmes on Vimeo.

Nei D’Ogum é batuque, é sexo e é negritude. É amor e contradição. Um guerreiro das causas negras, gays e transexuais. Ele é a própria causa. Auto define-se: “pobre, preto, puto”.

Ficha técnica

Roteiro: Diego Tafarel
Fotografia: Lucas Ferreira
Edição: Diego Tafarel e Zé Correa
Elenco: Nei D’Ogum

 

Precisamos Falar do Assédio

Paula Sacchetta | Brasil | 2016 | 80 min | Documentário
Produtora realizadora: Mira Filmes
14 anos

Precisamos Falar do Assédio – Trailer from mira filmes on Vimeo.

Na semana da mulher, uma van-estúdio parou em nove locais em São Paulo e no Rio de Janeiro. O objetivo era coletar depoimentos de mulheres vítimas de qualquer tipo de assédio. Ao todo, 140 decidiram falar. São relatos de mulheres de 15 a 84 anos, de zonas nobres ou periferias das duas cidades, com diferenças e semelhanças na violência que acontece todos os dias e pode se dar dentro de casa, em um beco escuro ou no meio da rua, à luz do dia. O filme traz uma amostra significativa, 26 deles. Nos depoimentos puros, sem qualquer tipo de interlocução, acompanhamos um desabafo, um momento íntimo ou a oportunidade de falarem daquilo pela primeira vez.

Ficha técnica

Fotografia: Francisco Orlandi Neto
Edição: André Bomfim, Bruno Horowicz

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